segunda-feira, 26 de junho de 2017

Mãe em sistema de revezamento

A maternidade impõe escolhas, prioridades. Para quem realmente se propõe a ser mãe, a vida deixa de ser como era antes, depois que a cria nasce. E não tem como ser diferente! O bebê humano é o mais dependente dos mamíferos e, nos primeiros anos de vida, demanda cuidados sem os quais sua vida corre perigo. O tempo para as atividades antes corriqueiras, portanto, fica mais escasso. E como não ganhamos, de bônus, horas excedentes em nossos dias depois que nos tornamos mães, surge a necessidade de fazer escolhas.
 
É claro que dá para continuar trabalhando, malhando, cuidando do casamento, encontrando as amigas,  acompanhando as notícias, viajando... depois que se tem filho. Mas não há como negar que são necessários ajustes para descobrir a melhor forma de colocar a dinâmica para voltar a funcionar, sem que os compromissos antes assumidos (conosco e com o outro) prejudiquem o compromisso maior que acaba de chegar.
 
Pois bem. Se com UM filho, a vida da gente já muda consideravelmente, imagina com TRÊS. E se os três têm idades completamente diferentes e um deles ainda tem necessidades especiais, ah, aí o nível de complexidade pode aumentar em proporções geométricas.
 
Neste caso, a maternidade impõe, além de escolhas e prioridades, uma cota extra de criatividade e de disponibilidade para o aprendizado. Diariamente.
 
Tenho abusado da minha cota extra de disponibilidade para o aprendizado para exercer a maternidade em casa. E este exercício tem potencializado o uso da minha criatividade. Com a primeira, descobri que preciso aceitar a fazer programações em separado com meus filhos, para melhor atender a seus interesses (falei sobre isso neste post), com a segunda, vou tentando colocar a descoberta em prática.
 
E assim nasce a mãe em sistema de revezamento. Mãe que leva o filho mais velho a uma escola, e os mais novos a outra; mãe que vê animação no cinema com os pequenos de tarde, e comédia americana com o grande à noite; mãe que caminha com a filha - em ritmo quase de passeio - pelo condomínio à tarde, e transpira com o mais velho na academia à noite; mãe que aproveita quando um dos filhos quer passar um turno na casa de um dos avós, para poder dar uma atenção mais intensa ao que ficou em casa; mãe que precisa ser dura - de vez em quando - com aquele que sempre demanda atenção, para poder cuidar daquela que, se deixar, fica em seu cantinho o dia todo (mas que começa demandar seu espaço também); mãe que, vez por outra, invade o quarto do adolescente altas horas da noite, para colocar em dia o papo que ficou sacrificado pelo cuidado com os pequenos; mãe que exercita a sensibilidade para perceber que programação cabe para cada filho, em conjunto ou separado, oportunizando-se o exercício da escuta; mãe que se desdobra para descobrir a melhor forma de atender aos interesses e às necessidades dos filhos.
 
E olha que só estou falando do revezamento na maternidade. Desconsiderando todos os outros necessários para a prática das atividades do nosso dia-a-dia.
 
Lendo, pode soar cansativo, mas (tirando - para mim - a dificuldade de admitir fazer programação familiar com a família compartimentada) o sistema vai-se impondo de forma tão natural que nem nos damos conta.
 
Em alguns dias o revezamento sai redondo, proporcional, e eu durmo feliz, com a sensação de dever cumprido; em outros, fico com a impressão que algo poderia ser feito de um jeito diferente. Nestes dias, já fui dormir inundada de culpa, me sentindo em débito com um dos meus filhos. Hoje em dia, lido melhor com a situação, sabendo que a dinâmica familiar não pode ser otimizada através de uma equação matemática, e que estas inexatidões fazem parte do processo. E assim vamos seguindo.
 
Mas ontem foi um dia redondo, feliz! À noite, quando o dia insistia em anunciar o seu fim, a sensação que me invadia era de plenitude, de felicidade incontida, de... sei lá, algo indizível...
 
O início do dia já dava pistas do que estava por vir.
 
Leti acordou feliz. Irreverente. Logo que entrei em seu quarto ela me saiu com a pérola: "Mamãe, vamos conversar? Eu quero resenhar com você." (resenhar é uma expressão muito usada pela família de Samir).
 
E aqui vale abrir um parêntese.
 
Dias antes, quando tive a reunião devolutiva da Ciranda, eu conversava com a TO coordenadora do seu grupo e ela questionava se o discurso de Leti sempre focado em comida, mesmo quando está indiscutivelmente saciada, não seria uma maneira, ainda incipiente, de incremento do seu processo de comunicação. Ela dizia que quando Leti chegava já pedindo biscoito, mesmo tendo acabado de almoçar, ficava com a sensação de que o que ela queria, de fato, era falar algo do tipo "oi, Luíza, tudo bem?". Mas, com o repertório viciado, o diálogo começava meio às avessas.
 
Ouvir este seu convite logo pela manhã me fez pensar que Luíza, realmente, deve estar certa.
 
E me fez recordar do desenvolvimento do processo comunicativo de Leti e da significância de cada etapa: no início, quando queria que ela simplesmente falasse; depois quando desejava que formasse frases; em seguida, quando o desejo era que as frases fossem funcionais; depois, que falasse um pouco sobre sentimentos; que falasse na 1a pessoa...
 
Meu desejo atual é que tenha a iniciativa de um diálogo mais abstrato (que não tenha como finalidade apenas atender a uma necessidade atual) e que relate fatos ocorridos. Parece que estamos passando por uma fase de transição.
 
Fecho o parêntese.
 
É óbvio que aproveitei a disposição dela para a resenha para conversar, apertar, encher de beijo e brincar. E como foi divertida a brincadeira!
 
Eu dizia que ia fazer um ataque de cócegas, ela se encolhia toda, sorrindo e esperando as cócegas, me derrubando no final, para se liberar, depois do que eu, ao cair no chão, fazia uma mega encenação que tirava dela gargalhadas intermináveis. A brincadeira se repetiu diversas vezes. Numa vez, me fingi de morta e disse que precisava de um beijo para voltar a viver, como a Branca de Neve. Ela me ignorou e saiu do quarto. Continuei imóvel. Quando ela voltou e me viu na mesma posição, disse "mamãe está muito morrida...", correu e me deu um beijo.
 
Várias outras brincadeiras se sucederam, o que, por ser muito raro com minha pequena, deu àquele momento um quê pra lá de especial.
 
Como Mateus quis ir para a casa da avó e Lipe ainda dormia, resolvemos ir à Barra, fazer nossa caminhada matinal com Leti lá.
 
Ela, como sempre, apresentou uma resistência inicial, mas logo cedeu, demonstrando que, sim, aquele era um passeio possível para ser feito por nós três: eu, ela e o papai.
 
E como foi delicioso caminhar com ela pela Barra! O dia estava lindo, o sol quente na medida certa, a ocupação agradável, sem causar tumultos, as belas paisagens naturais nos cercando por todos os lados.
 
Ela ainda demonstra uma certa insegurança em caminhar sozinha pelas calçadas, mesmo onde o piso é liso, e isso nos deixa um pouco intrigados, já que ela caminha bem em ambientes fechados. E, cada vez que precisava parar para tirar uma foto, por exemplo, se agarrava a nosso corpo, parecendo ter medo de cair.
 
Mas isso não tornou o passeio pesado. Pelo contrário. Nos permitiu experimentar estratégias para tentar ajudá-la a lidar com o medo.
 
Ao final, conseguimos manter uma hora de caminhada (o dobro do que fazemos em nosso condomínio), que serviu para cuidar da saúde física e mental de nós três. Foi uma deliciosa manhã de inverno.
 
 

 
 
O meu desejo para a tarde era dar um passeio pelo Pelourinho. Estava doida para conferir a decoração de São João.
 
Leti não quis ir, o que já era esperado; Mateus, na casa da avó, pediu que fôssemos buscá-lo para que pudesse ir concosco, e Lipe também topou a programação.
 
Quando fomos buscar Mateus, deixamos Leti - muito animada, inclusive - na casa da avó, e fomos dar uma olhadinha no Pelô.
 
Não chegamos a ver nenhuma apresentação junina. A ideia era apenas conferir a decoração junina e caminhar sem pressa, por onde desse vontade, coisa que não conseguimos fazer quando Leti está conosco, por conta das suas limitações.
 
A decoração, como eu imaginava, estava linda!
 
 
 
Aproveitamos para desbravar a parte do Pelô que vai dar no Carmo, e que ainda não conhecíamos (apesar de termos jantado uma vez no Pestana, mas parando o carro lá pertinho) por que exige uma caminhada considerável por uma ladeira.
 
O passeio nos reservava uma grata surpresa!
 
É bem verdade que sou suspeita para falar das belezas do Pelourinho, porque me encanto por cada pedacinho daquele lugar.
 
Mas passamos por casinhas diferentes, igrejas diferente, estabelecimentos diferentes, cada um com sua graça.
 
 
No caminho nos deparamos por uma longa escadaria que abrigava, em seu topo, um pequeno vira lata e é óbvio que Mateus quis subir cada degrau para ver o que o cachorrinho fazia lá em cima.
 


De lá seguimos nossa despretensiosa caminhada. O objetivo era simplesmente ver, conhecer as redondezas, sem qualquer intenção específica mas, como era hora do lanche, assim que avistou um Café, Samir sugeriu que fizéssemos uma parada.
 
Bendita parada!
 
A fachada do Cafelier, apesar de charmosíssima, pouco fala da singeleza do seu glamour (se é que isso é possível). A decoração rústica, com seus objetos clássicos, passando pela simpatia do dono do estabelecimento, que tomava seu café antessala de espera, enquanto um Garfield gato descansava preguiçosamente na mesa de jantar ao lado, são poucos se comparados à decoração do ambiente que atravessa o corredor, nos brindando, ainda, com uma linda vista da Baía de Todos os Santos. A bailarina pendurada no teto é linda! Os quadros são lindos! As cadeiras de ferro azul são lindas! As flores cor de lavanda são lindas... É tudo lindo demais por ali... O lanchinho é bom e o atendimento muito atencioso! Foi, sem dúvida, uma grande descoberta! É daqueles lugares que dá vontade de voltar para escarafunchar cada cantinho...
 
 
 





 

De lá ainda subimos mais um pouco para ver o Plano Inclinado, na esperança que estivesse aberto. Mas não estava. Descobri agora que não abre aos domingos.



A esta altura, eu ainda estava com meu instinto explorador aguçadíssimo, mas meus meninos davam sinais de fadiga. Resolvemos, então voltar.

No retorno, ainda paramos em frente à igreja onde tirei a foto do meu convite de formatura para um registro e no Largo da Casa de Jorge Amado para outros cliques.


 
Voltamos leves e felizes, sentindo o incremento de uma cumplicidade sem que qualquer palavra precisasse ser dita.
 
E para fechar o dia com chave de ouro, tivemos a visita festejadíssima de meus pais com quem, juntos, pudemos viver mais deliciosos momentos em família.
 
 
 
 
Este foi, de fato, daqueles dias em que o revezamento cumpre, com honras, o seu papel!

terça-feira, 20 de junho de 2017

9 aninhos!

Ela completou 9 aninhos ontem! Este ano não fizemos festa. Foi apenas um lanchinho, só para batermos os parabéns, com suas 3 amigas da escola, as avós, a bisa e os tios (três dos cinco que tem).
 
Ela acordou bem humorada, sorridente, conversadeira. Enchi de beijo, disse que era seu aniversário, dei os parabéns. Ela pediu o celular para ver youtube. Tentei argumentar, disse que queria conversar um pouco antes. Ela insistiu. Propus cantar para ela o hit que mais tem ouvido ultimamente: "Knock, knock, trick or treat...". Nesta hora, ela rebateu. "Não. Happy birthday to you..."
 
Pausa para uns apertos!
 
O dia foi recheado de carinhos e de bom humor. Ela pôde escolher o que queria e o que não queria fazer. Teve direito à sobremesa e a faltar a aula de natação. Escolheu os livros que queria ler, e as brincadeiras a fazer com suas amigas. Comeu tanto doce (na verdade nem foi taaanto assim), que rejeitou o bolo. Mas quando teve oportunidade, roubou um pedacinho e saiu correndo dando risada.
 
Salvo episódios isolados, passou o dia bem, divertida, radiante! Foi um dia feliz em que celebramos, além do seu aniversário, tudo de bom que tem acontecido em sua vida.
 
Parabéns, minha princesa!
  






quinta-feira, 15 de junho de 2017

Projeto de Atriz

Hoje ela acordou molinha, chorosa, sem querer nada, nem comer. A coisa ficou tão séria que passamos o dia oferecendo comida. Para nossa sorte, tínhamos marcada para hoje uma consulta com sua homeopata que me orientou nesta delicada fase de transição da halopatia para a homeopatia. À noite, quando ministrava a medicação, ela pediu picolé, biscoito, comidinha... Depois de comer os dois primeiros e rejeitar a janta, pediu mais biscoito. Disse que não poderia comer mais porque já tinha comido. Ela instantaneamente respondeu: "- mamãe, me dá biscoito que eu se (sic) acalmo!"
 
Quando eu digo que a Globo tá perdendo ninguém acredita!!!

sexta-feira, 9 de junho de 2017

Uma carta para Letícia

Filha linda!

Hoje eu quero falar para você. Não faço ideia de quando você vai conseguir decodificar esta mensagem, nem quando estará pronta para interpretar o seu conteúdo, mas, ainda assim, não quero perder a oportunidade de assumir, por escrito, o compromisso que fiz contigo no último domingo.
 
Quero, antes de tudo, te pedir desculpas.
 
Sim, eu percebi os sinais que você me mandou mas, mesmo assim, meu desejo de te ver brilhar era tão grande, que acabei me cegando para os seus reais desejos.
 
Sabe, com a proximidade do São João, com a recente melhora do seu quadro, e com os relatos da sua monitora de sala de aula, de que você ia bem nos ensaios da apresentação junina, eu revivi a imensa alegria de dois anos atrás, quando você, recém ingressa na nova escola, surpreendeu a todos na festinha de São João, e alimentei a esperança de reviver aquela experiência.

Mas nos 3 dias que antecederam a festa você, que ia tão bem, mudou um pouco. Estava visivelmente mais ansiosa, apertava as próprias bochechas, intensificou algumas estereotipias e, vez por outra, repetia, como uma mantra, a frase "São João não".
 
Confesso que cheguei a cogitar a possibilidade de mandar a apresentação às favas, mas você tinha ido tão bem no último ensaio que me fez querer apostar na sua capacidade de surpreender (e você nos surpreende tanto...), sem saber quanto isso custaria.
 
Mandei fazer um vestido lindo para você, entramos todos no clima e lá fomos nós para a escola, em pleno domingo, comemorar o São João.
 
Mas quando eu cheguei na escola, tive uma sensação estranha.
 
A escola estava linda, toda decorada, os funcionários ainda mais animados que o normal, as comidas típicas super apetitosas, o clima de São João em cada cantinho... Todo mundo que te via abria um sorriso tão verdadeiro e fazia um gracejo tão tocante...
 
Mas tive a sensação de que o som estava mais alto que o dia anterior, quando lá estava comemorando o São João do seu irmão caçula, que as pessoas faziam mais barulho ao conversar, que tinha gente demais num espaço de menos.
 
Na verdade, hoje percebo, tudo estava exatamente igual ao dia anterior, mas, naquele momento, eu senti o ambiente como, talvez, você o estivesse sentindo e isso fez meu coração se apertar até quase desaparecer.
 
Foi difícil te deixar com sua monitora na sala onde seus colegas estavam concentrados e me juntar aos pais para o momento tão esperado porque a minha vontade era ficar grudada em você.
 
Mas já tínhamos ido tão longe, por que não esperar mais um pouco?
 
E, como eu imaginava, a apresentação não foi semelhante a de dois anos atrás.
 
Ainda que a equipe da escola tivesse tido o cuidado de atribuir a você um papel que você conseguiria dar conta, todo o entorno, sem dúvida, te desestabilizou e impediu que você colocasse em prática tudo o que ensaiou. Até alguns artistas tremem ao subir ao palco...
 
Eu sei, minha pequena, tinha muita gente que você não conhece, muito barulho, muitos sentimentos misturados, muita expectativa.
 
Eu sentia o quanto estava difícil para você e, por isso, quis ficar perto de você entre uma apresentação e outra (eram duas curtinhas) para conversar com você, te acarinhar, tentar te tranquilizar.
 
Mas não foi suficiente!
 
Fico pensando o que você sentiu por mim naquele momento e confesso que me martiriza um pouco imaginar que você talvez estivesse me odiando por não tirar você daquela situação imediatamente! E você teria razão.
 
A Letícia de hoje não é a de dois anos atrás. Você está mais voluntariosa, mais decidida, menos flexível às coisas que não te agradam. E esta evolução é um espelho do seu desenvolvimento que tanto comemoramos.
 
Eu fico inflada de amor ao te ver bater na mesa, com uma cara séria, dizendo que não quer algo. E guardo a parcela de "mãe nutella" que toma conta de mim para lidar com a situação com a firmeza necessária que uma atitude desta maturidade pede, quando o momento não é de se negociar.
 
Mas eu me ceguei. Não ouvi os seus sinais. Não peguei você pelos braços e saí correndo dali. E, como, infelizmente, não tenho o super poder de fazer o tempo voltar para fazer algo diferente, resta-me pensar daqui para frente.
 
Por isso, ao sair da escola te pedi desculpas (e não sei se se lembrará disso quando puder ler este texto) e te prometi que aquela teria sido a última vez.
 
Você não precisará mais dançar quadrilha, nem fazer qualquer apresentação em público na escola se este não for o seu desejo. Você já precisa fazer tanta coisa que talvez preferisse não fazer que não seria justo te impor mais isso. E eu, como sua mãe, estarei firme e atenta para assegurar que terá este direito respeitado. É o mínimo que posso fazer.
 
O importante, tenho consciência, é o processo de criação com seus colegas e a equipe da sua escola, e disso você continuará participando, no seu tempo, do seu jeito e de acordo com a sua capacidade. Como sempre foi.
 
E quem sabe eu negocio com a escola para poder, sozinha, assistir ao ensaio final de uma próxima vez?
 
Seja como for, o objetivo deste post é pedir publicamente o seu perdão. E sei que já me perdoou, porque a serenidade do seu semblante ao ouvir o meu pedido de desculpas e o meu compromisso para o futuro, bem como o retorno ao seu estado de tranquilidade depois da nossa conversa deixaram isso suficientemente claro para mim.
 
Te prometo, minha pequena, de coração tranquilo e sem culpas - porque tenho consciência de ser humana e suscetível a erros - estar ainda mais atenta aos seus sinais, validar ainda mais as suas manifestações de vontade e buscar me melhorar a cada dia para poder te fazer feliz. Até o último dia da minha vida.
 
Te amo,
 
Sua mãe
 
 
 
 
 
 
 
 

quinta-feira, 1 de junho de 2017

Pronta para voltar

E, num piscar de olhos, a licença acabou! Na próxima segunda feira já é dia de voltar ao trabalho, mas com a robusta sensação de dever cumprido.
 
Como disse no último post, Leti vai de vento em polpa. E se ela está bem, eu fico ótima!
 
Acho que depois da minha fase de luto, época em que descobri que a filha que eu tinha recebido não era exatamente a que eu havia idealizado, e quando eu achava que tinha que conhecer tudo o que existia para o tratamento do autismo, para experimentar nela; esta foi a época em que fiquei mais perdida em relação ao que fazer com Leti. Me senti uma cega em tiroteio, querendo atirar para todos os lados...
 
Mas o fato é que passou. E foram tantas coisas que fizemos, que nem sei à qual devo atribuir os méritos da melhora. Mas isso não vem ao caso.
 
Ela está linda, aberta ao mundo, tranquila, feliz! Conserva, sim, algumas estereotipias, uns interesses restritos, alguns comportamentos que eu preferia que ela não tivesse, mas com os quais aprendi a conviver, entendendo que fazem parte dela.
 
E a vida volta a seguir seu curso natural, permitindo-nos resgatar alguns projetos que andavam sobrestados, aguardando o momento mais adequado para serem retomados, dentre eles, a vinda de suas amigas de escola a nossa casa.
 
Há alguns meses as lindas amigas de Leti vêm me abordando para marcar um encontro aqui em casa. Mas daí veio carnaval, depois o período crítico de transição da medicação, depois uma faringite...
 
Só agora conseguimos promover o encontro, que foi franqueado às amigas escolhidas pela minha pequena, em respeito ao seu desejo e à sua manifestação de vontade.
 
Estes momentos, como já relatei aqui e aqui (para quem tiver tempo para ler), são sempre muito ricos e hoje não foi diferente!
 
Mesmo com toda a resistência que Leti tem para brincar, ela brincou.
 
Chegou em casa ansiosa para "brincar" com seus lençóis e para ver vídeos no youtube e teve tempo para isso enquanto as meninas exploravam com Mateus algumas possibilidades.
 
Depois do almoço, aceitou a sugestão da amiga para brincar de esconde-esconde e não economizou alegria na brincadeira! Eu sempre ia na dupla com ela, fosse para contar ou para se esconder, para facilitar a sua participação. E ela contou direitinho, com o rosto escondido na parede, saía saltitando para procurar as meninas, gargalhava quando as encontrava. Na hora de se esconder, sugeria o local, ficava quietinha e, quando fazia menção de fazer barulho, e eu sinalizava, colocando o indicador em frente à boca para fazer silêncio, ela repetia meu movimento, dando aquele soprinho, típico de quando se pede silêncio. (vontade de morder) Linda demais!
 
Brincamos também com umas cartinhas de animais que ela ganhou de presente de minha irmã, que oportuniza uma espécie de jogo de adivinha. Quando íamos começar uma segunda etapa, com cartas diferentes e uma regra diferente, proposta pela amiga, ela acabou cochilando.
 
Enquanto ela cochilava, as meninas tomaram banho de banheira e, 30 minutinhos depois, estavam todos prontos para descer para um piquenique.
 
Lá embaixo, Leti participou, juntamente com as amigas, do lanche, das histórias e de mais esconde-esconde. Observou de perto a brincadeira no parque, o patinete, a bicicleta... Respeitando o tempo e o interesse de cada um, íamos fazendo mediações para oportunizar que minha pequena pudesse usufruir ao máximo da companhia de suas amigas. E tudo fluiu muito bem!
 
Ao longo da tarde, que terminou por volta das 17 horas, tivemos deliciosos momentos de diversão, que nossas lentes não conseguiram captar, para eternizar o registro, mas que estarão, sem dúvida, devidamente guardados para a posteridade em minha memória.
 
E agora que uma versão diferente minha desponta, mais leve e solta que a versão de um mês atrás, resultado de todo o processo de melhora de Leti, vou aproveitar o clima de estabilidade, e o tempinho de licença que me resta, para fazer a única coisa que falta para me sentir pronta para o retorno ao trabalho: cuidar um pouquinho de mim. #partiusalão rs
 
 
 
 
 
 

segunda-feira, 29 de maio de 2017

Gratidão e Amor

Antes de trazer as boas notícias, preciso abrir um parêntese sobre o post anterior.

Apesar do post ter sido concluído no dia 03 de maio, seu processo de escrita, até a conclusão efetiva, demorou cerca de dez dias, nos quais eu tentava digerir os acontecimentos, identificar meus sentimentos em relação a eles para, depois, traduzi-los em palavras.

O fato é que a fase mais crítica da transição de Leti foi, sem dúvida, a etapa inicial do processo, a qual já estava praticamente superada quando o post foi publicado.

No dia da publicação, já havíamos iniciado as últimas mudanças e o cenário dava mostras de melhora. Mas ainda não tínhamos certeza de nada. Tudo andava tão incerto... Foram tantas idas e vindas num espaço tão curto de tempo...
 
Mas aquela pequena melhora foi o combustível que faltava para fazer o post sair, documentando todas as angústias pelas quais tínhamos passado, e que já se mostravam um pouco mais amenas.
 
Os retornos que tivemos depois que o post foi publicado foram surpreendentes - de telefonemas e comentários de apoio a sugestões de intervenções e marcações para bate papo, passando por lindos atos de doação, vindos de pessoas próximas e outras nem tão próximas assim - nos dando a dimensão do quanto a humanidade pode ser boa e de como as redes sociais podem ser usadas a nosso favor.
 
Antes de partir para o texto deste post, portanto, gostaria de registrar meu sincero e caloroso agradecimento a cada um que, da sua maneira, juntou-se a nós numa corrente de oração e/ou energia positiva pela melhora da minha pequena: muito obrigada!
 
Mas vamos ao que interessa.
 
Depois de fazermos a experiência sugerida pelo psiquiatra, de aumentar, gradativamente, a dosagem do aristab por 30 dias, sem melhora substancial no comportamento de Leti, acabamos decidindo por trocar a medicação pelo invega, o que aconteceu no dia 04/05.
 
No mesmo dia, iniciamos o tratamento homeopático e, em paralelo, começamos a investir um pouco mais no lado espiritual.

Em pouco espaço de tempo ela começou a dar sinais de melhora.

O sono noturno teve uma melhora substancial, embora vez por outra ela ainda acorde de madrugada; a sonolência diurna reduziu; ela está consideravelmente menos agressiva, consigo mesma e com o outro (o que traz uma leveza enorme ao nosso dia a dia); está se permitindo outras atividades distintas dos seus interesses restritos e, o que é melhor, está sorrindo mais. Muito mais. Infinitamente mais...

Pequenas atitudes vêm nos dando mostras da sua melhora.

Durante todo o período crítico que passou, Leti desenvolveu um hábito que redobrou o meu estado de alerta com ela. Sempre que andávamos juntas, eu segurava uma de suas mãos e ela usava a outra para bater em quem passasse pelo seu lado. Normalmente um tapa que mais assustava que doía. Às vezes, mais forte. Para evitar a situação, passei a usar dos meus dotes de mãe polvo e, com a mão que não estava segurando a dela, mas segurava a de Mateus e, às vezes sua mochila, apoiava o ombro do braço livre dela, evitando que o levantasse para bater em alguém.

Há algumas semanas, saí da escola segurando um com cada mão e, apesar de termos passado por aglomerados de pessoas tentando buscar seus filhos, ela não levantou o braço para ninguém.

Ali me dei conta do primeiro sinal de sua melhora, a qual já deveria ter iniciado, neste aspecto, há mais tempo, já que eu não estava mais contendo seu outro braço, e nem tinha me atentado para isso.

Ela está aceitando fazer as atividades de casa da escola, mesmo reclamando, como sempre reclamou; voltou a aceitar as caminhadas pelo condomínio (depois de ter engordado horrores); está ainda mais conversadeira, argumentativa e divertida que antes. Temos tido um feedback positivo da escola e de suas terapias também, o que é um valioso termômetro.

Sim, e como havia dito, está mais sorridente.

Passamos o fim de semana do dia 21 (aniversário de minha irmã) em Guarajuba, e eu não cabia em mim de tão derretida que estava com ela, que se comportou tão bem, conversando, sorrindo, brincando, passeando, curtindo tudo que lhe era apresentado: brincou de cartinhas, tivemos momentos de leitura; foi ao parque, mesmo sem ter coragem de brincar, se esbaldou na praia, assistiu vídeos no youtube, no último dia até arrancou o próprio dente, e a quantidade de sangue que saiu não desencadeou nenhum comportamento autoagressivo, como aconteceria antes.

E o melhor de tudo é que esse quadro que mereceria uma moldura, não ficou estático lá naquele fim de semana. Tem sido uma constante eu me sentir derretida com seus sorrisos, com suas divertidas intervenções, com suas manifestações de carinho...

Na última sexta, por exemplo, depois de ficar um tempo com Mateus, que se eu permitisse me monopolizaria não deixando eu dar atenção aos outros irmãos, fui ao quarto dela ficar ao seu lado.

Ela tinha tido aula pela manhã, terapia na Ciranda a tarde inteira e, naquele momento, queria apenas ver TV, não aceitando qualquer outra alternativa.

Perguntei se poderia ficar ao seu lado assistindo e ela respondeu que sim (e quando ela não quer, responde categoricamente que não, e pede para eu sair).

Eu a envolvi em meus braços (imaginando que ficaríamos naquela posição por apenas alguns poucos segundos) e ficamos agarradinhas vendo um vídeo em inglês, quando Mateus, que estava brincando com a babá, entrou no quarto fazendo-nos uma proposta, para ele, irrecusável: trocar de companhia.

Perguntei a Leti se ela queria trocar e ela, bem dengosinha, disse que não queria trocar, que queria ficar com a mamãe.

Expliquei a Teu que aquele momento era meu com Leti, pedi que voltasse a sua brincadeira com a babá e fiquei curtindo aquele abraço intenso e agradecendo a Deus por me oportunizar, através daquele abraço que durou uns poucos minutos até ela adormecer, um sentimento tão pleno de amor que me mantém alimentada até hoje.

Hoje sou só amor e gratidão.


 
 
 
 

 



 
 
 

quarta-feira, 3 de maio de 2017

Às vezes parece tão difícil...

Há mais dois meses estamos vivendo momentos difíceis em casa com Leti.
 
Já havíamos interrompido a (necessária) mudança da medicação no ano passado, quando os primeiros efeitos colaterais começaram a aparecer às vésperas de uma viagem que eu faria com Samir, deixando as crianças aos cuidados da vovó Irá, e o assunto ficou simplesmente adormecido.
 
Mas este ano começou com um gás novo, cheio de expectativas e, depois de uma reunião entre o psiquiatra de Leti e as terapeutas que a acompanham, a mudança surgiu como prioridade. A ideia era dar uma melhorada no quadro geral dela e evitar alguns efeitos adversos que surgem depois de um tempo de uso da medicação.
 
O início da mudança começou depois da reunião sobre a qual falei neste post, e exatamente no dia 24 de fevereiro, em pleno carnaval. A recomendação era introduzir um ansiolítico (revia), para tentar conter a compulsão alimentar, e trocar a medicação psiquiátrica.
 
De lá para cá, nossa vida tem virado e revirado do avesso constantemente.
 
Conforme orientado pelo médico, fomos retirando a medicação que Leti usava gradativamente e, ao mesmo tempo, íamos introduzindo a que a substituiria.
 
No primeiro estágio da mudança, Leti praticamente parou de dormir. Dormia entre 20h30 e 21h, acordava 0h30 e não dormia mais. É bem verdade que ela já não vinha dormindo tão bem quanto a época do início do uso da medicação, mas nunca tinha dormido tão pouco como nesta primeira semana de transição. Eu tinha impressão de poder surtar a qualquer momento... Mas passou!

Depois desta etapa inicial, uma série de outras etapas difíceis se sucederam.

Leti ficou mais agressiva com as pessoas, o que foi percebido não só em casa, como também na escola e nos ambientes que costuma frequentar; ficou mais autoagressiva, apertando muito as bochechas, mordendo o braço e batendo sua cabeça em paredes e espelhos, coisas que vinha fazendo muito pouco; voltou a fazer com mais frequência um movimento de autoestimulação que aprendeu por volta do terceiro ano de idade, mas que estava meio esquecido; ficou visivelmente mais irritada, impaciente e com seus interesses limitados a praticamente duas coisas: assistir vídeos do youtube pelo celular e brincar de passar saliva em lençóis (mania que desenvolveu há algum tempo). Ficou completamente desinteressada por tudo que envolvesse a escola, o que nos deixou preocupadíssimos! Ela tinha começado o ano tão bem...

Além disso, o sono tem sido um grande problema: tem oscilado entre períodos em que dorme péssimo, com outros em que dorme mal ou menos pior. Tem estado MUITO sonolenta durante o dia, dormindo pela manhã e pela tarde, o que vem sendo sinalizado com regularidade pela escola.

Como o médico dela nos atende em São Paulo, durante todo o período, ele vem nos dando assistência remota, orientando alterações a serem feitas e explicando o que vem acontecendo.

Num primeiro momento, pensávamos que, ultrapassada a fase de transição, com a completa retirada da medicação anterior (risperidona), e a completa introdução da nova (aristab), os problemas estariam superados. Mas não! Ela continuava agressiva, sonolenta, desinteressada...

Mesmo nas noites em que dormia melhor, continuava sonolenta durante o dia, o que nos deixava muito intrigados.

Então, como o médico nos garantiu que a sonolência não era efeito colateral do remédio, podendo ser consequência de uma má qualidade do sono (mesmo quando estavam garantidas, por exemplo, 6 ou 7 horas de sono), resolvemos retomar um ponto que havia ficado de stand by, depois que o otorrino contraindicou a cirurgia de adenoide no início de março: a polissonografia.

A polissonografia sempre me fez tremer na base, confesso. Não conseguia acreditar que ela conseguisse fazer. Por isso, quando o médico americano sugeriu o exame, por conta da recorrência de apneia no seu grupo de pesquisa que deu ensejo à catalogação da síndrome de Leti, depois de marcar para fazê-la, acabei tentando inverter as etapas das coisas, partindo primeiro para a cirurgia, que seria a primeira providência adotada caso fosse diagnostica a apneia com o exame, já que, desde pequenininha ela já tinha indicação cirúrgica para adenoide.

Mas o otorrino - da nossa absoluta confiança - depois de constatar que a adenoide de Leti havia reduzido, ponderou que, sem um diagnóstico (como, por exemplo, uma apneia) que justificasse a intervenção cirúrgica, esta ofereceria mais risco que benefício, ante a necessidade de um pós operatório sob sedação.

Voltamos, então, ao ponto de partida e acabei marcando a polissonografia para 24 de maio.

Mas eis que, na mesma semana em que fiz a marcação, surgiu uma desistência para dali a dois dias. Mal tive tempo para me preparar psicologicamente e lá fomos nós duas, às 20h do feriado de 21 de abril, tentar fazer a tal da polissonografia.

Ela, com a orientação da médica e amiga que prescreveu o exame, foi para a clínica depois de tomar toda sua medicação, inclusive a melatonina, e, conforme prevíamos,  mesmo num ambiente diferente, dormiu por volta de 21h.

Esperamos cerca de 30 minutos para começar a colocar os eletrodos e, à medida que o tempo ia passando, eu ia ficando mais otimista!

A técnica virava ela para um lado, virava para o outro, colocava fio aqui, fio acolá, e nada acontecia. Ela continuava roncando...

Mas, acredite, depois de colocar TODOS os eletrodos, quando foi colocar o oxímetro no dedo do pé, ela deu uma leve despertada, e, ao olhar para a desconhecida ao lado, acordou!

Neste momento começou a via crucis!

Eu deitei ao seu lado para tentar fazê-la voltar a dormir, sem que percebesse a quantidade de fios presa a seu corpo.


Foram quase duas horas de conversa e contenção, dentro das quais acabei tirando dela o oxímetro e 4 fios presos ao rosto, para que se tranquilizasse e tentasse retomar o sono. Neste intervalo, fui alvo de agressões como nunca tinha sido antes: tapas no rosto, puxões de cabelo e beliscões, que me deixaram com dor de cabeça e ânsia de vômito. A reação, sem dúvida, foi um somatório de diversos fatores, dentre eles o desconforto causado pelo exame, a falta de discernimento sobre sua necessidade e o efeito da medicação. Ao final, eu estava emocionalmente exausta! (imagina ela...)

Mas o fato é que duas horas depois ela dormiu de novo e, passados mais trinta minutos, para tentar deixar o sono mais pesado, reiniciamos o procedimento.

Poucos minutos depois ela acordou novamente, ainda mais irritada e impaciente, deixando claro que não conseguiríamos fazer o exame.

Já era meia noite quando, frustrada, joguei a toalha e telefonei para Samir, pedindo para ir nos buscar.

Me senti uma fracassada! Arrasada! Com tantas expectativas frustradas... Logo no início, quando acompanhava a manipulação dela pela técnica, e acreditava que seria possível  realizar o exame, eu alimentava a expectativa de encontrar respostas para sua sonolência diurna, para o encaminhamento ou não à cirurgia, vislumbrava um caminho para uma melhora de sua qualidade de vida...

Mas ainda não foi desta vez.

E este episódio em particular me deixou especialmente triste e reflexiva.

Em paralelo, já vínhamos atuando em outro fronte.

Há alguns meses sua dentista tinha recomendado muito enfaticamente que a levasse a uma médica homeopata de sua confiança. A consulta, marcada desde novembro do ano passado, aconteceu na mesma semana do exame, no dia 17 de abril.

Depois de uma longa conversa, resolvemos fazer o tratamento homeopático e tentar um acompanhamento fraterno junto a um Centro Espírita, para tentar chegar a um campo da minha pequena que a medicina tradicional e o acompanhamento psicológico não alcançam.

Antes disso, ainda, no dia 09 de abril, depois de tanta conversa por whataspp, tivemos uma consulta por Skype com o psiquiatra e ele recomendou mais algumas mudanças.

Depois de reforçar o que já havia dito, que os sintomas que vinham (re)aparecendo em Leti não eram, na verdade, efeito colateral da medicação nova, mas resultado de uma falta de eficácia da medicação (ou seja, aquela seria a minha filha em seu estado natural), orientou que promovêssemos um aumento gradual da dosagem e observássemos os resultados. Esta experiência duraria 30 dias e, caso não notássemos mudança significativa, mudaríamos a medicação para uma terceira.

Sinto que preciso dar um pause na minha vida para pensar no que fazer e como fazer com minha filha, dando a ela um acompanhamento mais próximo e ostensivo, para tentar trazê-la ao eixo de novo, de preferência, melhor regulada e mais aberta ao mundo.

Pensando nisso, tentei (e consegui) a liberação para fruir uma licença prêmio a que tinha direito no trabalho e vou usar destes 30 dias para me dedicar ainda mais a ela, com a esperança que este investimento me trará um excelente retorno.

Quem quiser se juntar a nós, numa corrente de fé, orações e energias positivas será muito bem vindo!

Obs.: Peço desculpas se o texto ficou longo e confuso, sem seguir uma ordem cronológica, mas ele, certamente, reflete um pouco do meu estado nos últimos dias.

segunda-feira, 24 de abril de 2017

A morte e seus mistérios

Ontem antes de dormir, Mateus perguntou que dia era. Respondi que era domingo. Domingo é sempre um dia feliz, porque é o dia que dormimos grudados. E este grude noturno é um terreno sempre fértil para altas resenhas. Ele, então, num estalo, me perguntou: "mamãe, 'Deus' nasceu hoje?" Fiquei meio sem entender e respondi que não; que Jesus tinha nascido no natal.
 
Mas ele insistiu: "Ele nasceu de novo hoje, mamãe?".
 
Neste momento, me dei conta de que, na semana da Páscoa, conversamos um pouco sobre a morte e ressurreição de Cristo, lendo a Bíblia das Crianças que foi de Lipe.
 
Então respondi, depois de tentar explicar porque tinham matado Jesus (dúvida que ele não aceitava ficar sem resposta), que Ele havia ressuscitado naquele domingo de Páscoa e que na semana seguinte já estava vivo outra vez.
 
Foi a ponta do iceberg para uma profunda discussão sobre morte, medos e sentimentos intensos.
 
Ele perguntava se iríamos morrer também, dizia que não queria que eu morresse, que não queria morrer, perguntou se nasceríamos de novo depois da morte...
 
Quando estava aparentemente satisfeito com o curso da conversa, fechou os olhos. Minutos depois, os abriu e perguntou mais uma vez, implorando por uma resposta positiva, se depois que morrêssemos, nasceríamos de novo e na mesma família. Disse que queria a mesma família - igualzinha - de novo.
 
Ai, por que é tão difícil falar de morte com crianças pequenas??

Feliz pela verdade

- PAPAAAAAAIIIII!!!!!

- O que foi, filho?

- Eu tô chamando papai!

- Ele tá ocupado. O que você quer?

- Cadê meu último ovo de páscoa? Tava aqui na cestinha!...
(Cara amarela da mamãe) 


  - Filho, eu comi.


- O QUÊ????


- Filho, eu tava louca de vontade de comer chocolate, achei que você não queria este porque estava do seu lado de tarde e você não comeu. Não resisti. Me desculpe!


Bico e silêncio! 


Minutos depois...


- Mamãe, eu te perdoo. Porque você falou a verdade. Tô feliz porque você falou a verdade.


Cataploft!!!!!

domingo, 9 de abril de 2017

Meus 40: um breve (nem tão breve) resumo

Faltavam 8 dias para o meu aniversário e eu não estava nem um pouco animada sequer para pensar em fazer algo para comemorar.
 
Os dias que o antecederam, como disse no último post, foram difíceis e, sem que eu percebesse, pareciam sabotar qualquer tentativa minha de celebração, fosse qual fosse a motivação. Eu não me sentia triste. Mas simplesmente desanimada, desenergizada...
 
Então, no dia 25 de março (dia em que escrevi o último post, ainda tocada pela música de Ana Vilela), meu grupo de amigos se reuniu para um jantar, como fazemos com certa regularidade, e as coisas tomaram outro rumo.
 
Cheguei à casa de nossos amigos tomada por uma sensação de torpor, causada pelas reflexões a que a música havia me levado e pouco aberta a grandes demonstrações de alegria. Não sei se chegaram a notar...
 
Mas é difícil manter este estado junto a este grupo de amigos e, de uma hora para outra, eu já estava dançando arrocha no meio da sala e fazendo graça para vídeos do boomerang. E foi neste clima que as meninas do grupo praticamente me intimaram a comemorar a passagem dos meus ENTA, iniciando uma força tarefa que culminou na deliciosa celebração do último domingo.
 
A festa foi um pouco diferente do que eu tinha imaginado há um ano, quando o orçamento doméstico não estaria comprometido com a decoração do apartamento, que entrou para a lista de prioridades no início deste ano e cujo projeto encontra-se em execução. Mas acho que esta limitação acabou dando um quê de especial ao dia, favorecendo uma participação maior das amigas para que a festa viesse a acontecer.
 
Elas criaram um grupo no whatsapp, se habilitaram para preparar umas iguarias, disponibilizaram contatos e contribuíram, principalmente, com a motivação que durou por toda a semana em que a festa foi organizada.

Durante os 7 dias de preparação, minha cabeça esteve a mil por hora!

Fiz uma pequeníssima lista de convidados, selecionei umas fotos para dar um toque personalizado ao evento, escolhi o tema da festa (minha linda cidade de Salvador), fui ao Mercado Modelo angariar detalhes para dar uma carinha a minha festa, acionei meu tio e super fotógrafo da cidade - Osmar Gama - para me disponibilizar umas imagens para a festa, defini comidinhas, bebidas e música para o dia...

Junto com o cantor indicado por um outro indicado, e que não fazia o repertório que eu queria, escolhemos a dedo as músicas que seriam tocadas no dia.

A expectativa era grande até a chegada do dia 02.

E o dia amanheceu com muitas novidades!

Acordei com um abraço diferente do maridão. Um abraço que diz tanto, mesmo sem falar nada. Um abraço desinteressado e tão cheio de intenções... Reconfortante, energizante... A este abraço seguiram-se outros igualmente significativos de cada filho, e, em especial, o de Lipe, meu filho mais velho que fala tão pouco sobre sentimentos, mas conseguiu me dizer tanto com seu abraço que encheu meu tanque de amor no início do dia...

Em seguida chegaram meus pais para tomar o café da manhã comigo, como fazemos desde que eu era criança.

Quando eu me preparava para começar a arrumação do salão para a festa, fui surpreendida com um inusitado presente, ofertado pelo grupo de amigas - das antigas - da escola, que intitulamos de G8: uma sessão de massagem relaxante.

Confesso que meu primeiro pensamento foi: "- Putz! tenho tanta coisa pra fazer..."

Mas a massagista montou a maca, colocou uma musiquinha relaxante, que lembrava o som do mar, e começou a massagem exatamente por um ponto de tensão no meu ombro que me chamou atenção logo que acordei. Em poucos minutos o pensamento que vinha a minha cabeça era: "Puxa! Eu jamais teria a ideia de reservar este tempo para mim no meu dia... e está me fazendo tão bem..." Agradeci, em silêncio, e tomada por emoção, a iniciativa das minhas amigas de me proporcionar aquele importante momento meu comigo mesma, no iniciozinho do novo ciclo da minha vida.

Depois dali, com corpo e mente sãos, segui para o encontro das amigas que me aguardavam para o início da maratona de arrumação do espaço da festa.

Tinha algumas ideias para a decoração, mas não sabia exatamente como implementar. Então deleguei ao cunhado e à irmã a tarefa de organizar os mosaicos de fotos que tinha imprimido, à prima super grávida e à amiga-irmã a missão de fazer a cortininha de fitas do Bonfim, e juntamente com todas, posicionamos as imagens de Salvador cedidas por meu tio, arrumamos a mesa e o espaço da festa, enquanto o marido dava o suporte logístico necessário.

O resultado ficou lindo! Sem falsa modéstia. Nada sofisticado ou espetaculoso. Mas aconchegante, pessoal, e com o efeito que eu imaginava... Com a cara de Salvador e um pedacinho da minha história, nestes primeiros 40 anos, em cada canto.






 
 
Como a festa foi para poucas pessoas, tive oportunidade de aproveitar a presença de cada uma, que estava ali por representar um importante segmento da minha vida. Ali estavam amigas de infância, de adolescência, da vida adulta; familiares de sangue e de coração; amigas de trabalho, de escola, de rua, de militância...

Foi delicioso compartilhar aquele momento com pessoas tão queridas. Foi especial sentir a emoção das pessoas ao relembrarem dos momentos compartilhados comigo, rememorados pelas fotos espalhadas pelo salão. Foi contagiante a alegria do ambiente, embalada pela trilha sonora cuidadosamente escolhida. Foram tocantes as mensagens deixadas para a posteridade no álbum disponibilizado a quem quisesse me dizer alguma coisa...

Alguns presentes ainda deram um quê de especial ao dia, como a linda pulseira feita pela amiga de infância; o sensível livro que pertenceu a uma amiga e que parece ter escrito para retratar uma vivência da minha família; um perfume que poderia ser só um perfume mas que, na verdade, era o cheiro de vida que pretendia ser o presente... E tantos outros que eu olhava e pensava "eu certamente teria comprado para mim", mostrando o quanto as pessoas se dedicaram a procurar algo que realmente tivesse a minha cara...

O dia de foi de felicidade nos pequenos detalhes. Felicidade plena e gratidão por me sentir tão presenteada na vida por Deus. Por me sentir tão querida. Por sentir que a energia que gira em torno de mim é tão positiva e vibrante! Tenho tanto na vida que às vezes me questiono se realmente faço por merecer...

Mas rever as imagens do dia dos meus 40 anos me leva a crer que, sim, sou merecedora de todas estas bênçãos.










 



 

Foi dia de celebrar a vida, a família, os amigos; as conquistas e as dificuldades que me fortaleceram; as alegrias e também as tristezas, que pareceram reforçar ainda mais os vínculos com as pessoas queridas. Foi um dia de fortes emoções, acolhidas em envolventes abraços.





 
Foi dia de tomar todas, de rir muito, de dançar, de viver intensamente o sentimento de celebração!
 






 
Como se não fosse suficiente, no dia seguinte fui presenteada por um vídeo do G8, no qual amigas que hoje não moram em Salvador, ao lado da que representou o grupo na festa, mandaram suas felicitações, mostrando que a distância é nada quando a amizade é verdadeira.
 
E, para finalizar o período sabático de passagem para os ENTA, na última sexta feira, meu tio (o fotógrafo de quem falei lá em cima), que no início da festa disse que faria umas imagens para fazer um videozinho para mim, pediu que eu reunisse uns amigos em casa para assistir o vídeo que ele tinha feito com as imagens da festa.
 
JURO que pensei que era um resuminho da festa apenas. E só isso já era o bastante para me animar a reunir umas pessoas para assistir, já que eu ainda sentia na pele a energia do dia.
 
Mas fui vítima de uma conspiração!
 
Sem que eu percebesse, e por uma linda iniciativa dele, quase todos que estavam na festa tiraram um tempinho para deixar uma espontânea mensagem para mim.
 
Foi de arrepiar!!!!
 
Fiquei absurdamente emocionada e tocada por sentir que minha vida, despretensiosamente, inspira tantas pessoas que representam tanto para mim e por constatar a riqueza que consegui acumular ao longo destes primeiros 40 anos e que pretendo preservar nos próximos 40.
 
Iniciado o novo ciclo, resta-me agradecer e continuar regando o jardim para que, nos próximos anos, toda emoção aqui relatada continue a florescer, fazendo-me ainda mais feliz e realizada!
 

 
 
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