terça-feira, 8 de fevereiro de 2011

Carta a Minha Professora

Ontem começaram as aulas de Leti. No ano passado, deixei a escola meio de mão. Meu acompanhamento não foi como eu queria, porque acabei priorizando outras coisas.

Dentre as minhas metas para 2011 está fazer um acompanhamento mais próximo do trabalho da escola, para me certificar de que eles estão, efetivamente, praticando a inclusão, embora o próprio conceito de inclusão, para mim, ainda não esteja muito definido.

De qualquer forma, achei importante, tomando como inspiração um post de Ana Paula, contar um pouco sobre o estágio atual de Leti para sua professora, numa linguagem que a motivasse a se tornar uma aliada nossa nesta caminhada.



Querida Pró Camila,
Gostaria de aproveitar que hoje é meu primeiro dia de aula deste ano letivo para te contar um pouco sobre mim, para que, conhecendo-me melhor, você possa estar mais preparada para me auxiliar nesta minha caminhada que se (re)inicia na Gira Girou.

Sei que já sabe que sou uma criança especial. Mas o que quero que saiba também é que não sou especial apenas por conta das minhas limitações, mas também porque, do meu jeito, venho ensinando todos ao meu redor a conviverem melhor com as diferenças, a entenderem que cada pessoa tem o seu tempo, e, consequentemente, a serem mais pacientes e a amarem mais verdadeiramente.

É impressionante a atmosfera de amor que me cerca e, é neste clima, que te convido a fazer parte da minha vida, dando sua significativa contribuição para o meu processo de desenvolvimento.

Precisarei muito da sua intermediação na escola porque, ao contrário dos meus coleguinhas, ainda não possuo a autonomia que as crianças da minha idade possuem.

Mas tive grandes avanços em relação ao ano passado!

Já tenho dado uns passos soltinha, e feito isso pelo simples prazer de perceber que consigo. Te peço que esteja sempre me proporcionando a oportunidade de andar só e que me motive nesta caminhada.

Da mesma forma, no finalzinho do ano passado, comecei a falar as minhas primeiras palavras, o que deixou toda a família bastante feliz. Peço água, bolinho, cookie, banana, comidinha, sopa, suco, gagau e algumas outras coisas. Reconheço (e nomino) diversos animais, conheço os números de 1 a 11 (dentro e fora da sequência), identifico pessoas próximas pelo nome, dentre tantas outras coisas... Estou muito esperta!

Como às vezes minha dicção não é muito compreensível (às vezes, sussurro), peço que tenha comigo um pouco mais de paciência e que se esforce para entender o que digo, para que, desta forma, eu perceba que podemos manter uma comunicação efetiva.

Ainda tenho um pouco de dificuldade para me relacionar com outras crianças (elas não me interessam muito) e um pouco de resistência para brincar. Acredita? Neste ponto, sua ajuda será fundamental. Você poderá se tornar uma importante parceira da minha família nessa deliciosa tarefa de me mostrar o prazer que a brincadeira pode proporcionar.

Por outro lado, gosto muito de livrinhos de estórias e de música. Sei cantar, sabia? É só me dar um pouquinho de tempo que verá como canto lindo...

Minha aptidão para artes ainda é muito restrita, mas me interesso em usar as mãos para pintar com tinta e arrisco alguns rabiscos com gizes de cera um pouco maiores que os tradicionais, e de formatos inusitados (temos uns bem legais em casa). Podemos ampliar esta habilidade, não é verdade?

Outra coisa que acho importante saber é que, quando fico me balançando de frente para trás, ou emitindo um som constante (que parece um grito contido), ou contraindo muito meu abdômen, é porque não estou satisfeita com alguma coisa. Nestes momentos, você pode tentar me envolver com alguma atividade do meu interesse ou, simplesmente, me pegar no colo e me fazer um carinho. Te serei grata por isso.

Peço também que não me deixe por muito tempo absorta, pegando coisas pequenas, como linhas, pedaços de papel, grãos de areia, migalhas de comida, porque, nestas horas, acabo esquecendo-me do mundo, e entrando num mundinho só meu, que não é muito saudável ao meu desenvolvimento.

Por fim, não poderia deixar de dizer que, apesar de todos saberem que sou uma garotinha especial, por conta do atraso global do meu desenvolvimento, constatado desde meu sexto mês de vida, até hoje não tenho um diagnóstico fechado, mas apenas uma suspeita de autismo, que talvez possa estar associada a uma síndrome genética.

Ah, se quiser saber mais novidades a meu respeito, pode falar com meus pais, com os terapeutas que me acompanham, ou, ainda, dar uma olhadinha no blog que a mamãe criou: http://www.especialesercrianca.blogspot.com/.

Espero que tenhamos um ano muito especial juntas.

Beijo carinhoso de Letícia, filha de Janaína e Samir, e irmã de Felipe.

6 comentários:

Gabriela disse...

Perfeita a carta!
Queria ter visto a cara da pró quando leu!
Nossa princesa linda é muito especial em nossas vida.
Cada dia mais linda, mais esperta, mais amada!!!
Beijão

Ivana (Coisa de mãe) disse...

Ai Jana, você quase me fez chorar aqui...Meu Deus que coisa linda amiga, a cada dia te admiro mais, a sua luta, a sua garra, o seu discernimento...! Você é uma mãe que irradia emoção, luz e amor! Parabéns pela iniciativa, pela inspiração, e não tenha dúvidas de que essa carta representa mais um longo passo que Leti está dando!

Bjos!!!

Ivana

Ana Paula Pacheco disse...

Fiquei muito emocionada!
Desejo de todo coração toda sorte deste mundo para vcs! Acredito, que a professora que receba nossos filhos não são apenas professoras, SÃO A PROFESSORA, aquela que sabe a diferença que seu trato fará para toda uma vida de uma criança. Quem não gostaria de marcar uma existência assim? Fazer toda a diferença para alguém?
Um grande beijo em vcs!

luciana.torres.sales disse...

Que carta linda, amiga.
Quanta emoção e quantos detalhes vc conseguiu registrar neste relato.
Tenho certeza de que essa sua iniciativa será muito útil para auxiliar a Profa de nossa pequena princesa.
Parabéns minha irmã!!!
Leti e Lipe são muito abençados por terem vc como a mamãe deles.
Estou aqui para qualquer coisa, ok?
Bjs

Luiza Coelho disse...

uauuuuuuu me fez chorar porque eu senti cada coisa que escreveu... a inclusão é uma coisa difícil e que tem que partir muito mais das PESSOAS do que da lei, do governo, etc etc... os serem humanos têm que aprender a ser inclusivos... as vezes nós mesmo não somos (muitas vezes na verdade)... é o cara tatuado, é a prostituta, a vizinha que faz barulho, etc etc... quantas vezes não temos paciência com a diferença? Tomara que a professora da Leti aproveite essa oportunidade de conviver com uma pessoa tão maravilhosa e que tem tanto a ensinar (alunos ensinam muito tbm :))... Emocionante e linda... fiquei orgulhosa dessa mãe tão batalhadora!

www.estouautista.com.br

Mariana - viciados em colo disse...

minha sorte é que estou gripada e posso dizer que as lágrimas aqui no meio do trabalho foram de um espirro... ah, jana! se toda mãe fosse como você! esta capacidade de observar e conhecer sua filha me impressionam de verdade!
beijoca

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