quinta-feira, 24 de março de 2011

São Paulo Parte 2: Integração Sensorial

O outro motivo para irmos a São Paulo, como dito aqui, foi fazer uma avaliação de Leti com Aline Momo, terapeuta ocupacional, especialista em integração sensorial.

Como acredito que talvez mais da metade dos seguidores do blog não faça a menor ideia do que seja integração sensorial, vou tentar fazer um breve resumo, apenas para contextualizar o assunto.

A abordagem da integração sensorial surgiu na década de 70, com a terapeuta ocupacional Jean Ayres, e partiu do pressuposto de que todos os comportamentos motores, cognitivos e emocionais emitidos por uma pessoa decorriam de uma resposta do sistema nervoso central a estímulos sensoriais recebidos do meio ambiente.

Acreditava-se, portanto, que, se o processamento e a organização da informação sensorial fossem harmoniosos, o comportamento e a aprendizagem fluiriam sem problemas.

Por outro lado, quando o processamento de tais estímulos fosse inadequado, acabaria resultando em distúrbios de desenvolvimento, comportamento e aprendizagem.

Os estímulos sensoriais levados em consideração são, além dos tradicionais táteis, visuais, auditivos, olfativos e gustativos, também os vestibulares e proprioceptivos.

Como os tradicionais são autoexplicativos, falarei um pouco apenas daqueles que pareceram inéditos para mim: o proprioceptivo e o vestibular.

O sistema vestibular é o responsável pela manutenção do equilíbrio da cabeça e do corpo, através da detecção do movimento e da gravidade. Os receptores deste sistema estão localizados no labirinto, órgão do ouvido interno, e ele responde não apenas pela postura, mas também pela orientação espacial do indivíduo.

Atividades de subir, descer, girar, balançar estimulam os sensores vestibulares.

O sistema vestibular influencia no movimento da criança (velocidade, intensidade e duração), no tônus muscular (alteração de postura e tensão muscular para atividades físicas), no sistema ativador reticular (alterações no estado de alerta e na regulagem do sono e vigília), em outros sistemas sensoriais (tátil e proprioceptivo) e na integração bilateral (habilidade de coordenar os dois lados do corpo).

O sentido proprioceptivo é aquele através do qual conseguimos saber exatamente onde cada parte do nosso corpo está, mesmo sem precisar olhar para ela. É a percepção que se tem do próprio corpo.

Os receptores deste sistema estão localizados nos músculos e nas articulações.

"A estimulação proprioceptiva é uma programação neuro-motriz na qual uma diversidade de exercícios com graus de dificuldade programada, o paciente obtém a percepção e controle de segmentos do seu corpo e o corpo como um todo." (Lígia Maria de Godoy Carvalho).

Uma disfunção no sistema proprioceptivo pode acarretar movimentos incoordenados, quedas frequentes, inabilidade em segurar objetos sem olhar para eles, dificuldade em moderar força de preensão para segurar um lápis ao escrever...

A terapia de integração sensorial busca, portanto, avaliar o processamento sensorial do paciente para, a partir daí, trabalhar conjuntamente um sentido que tem um processamento adequado, com um deficitário, para tentar buscar um equilíbrio que, normalmente, acarreta reflexos visíveis nas atividades do dia a dia.

Avalia-se, assim, antes do início do trabalho, o limiar da criança aos determinados tipos de estímulo. Lembro-me que no curso de Floortime a palestrante falava de uma criança autista que tinha um limiar auditivo muito baixo, e que, por morar próximo a uma estação férrea, vivia em crises, sem que ninguém descobrisse a causa. Um som aparentemente irrelevante para um, pode parecer ensurdecedor para outro. Precisamos estar atentos porque, às vezes, situações corriqueiras podem estar causando um prejuízo absurdo à qualidade de vida destas crianças, sem que ninguém se dê conta.

A terapia de integração sensorial, então, se põe a serviço deste equilíbrio que desejamos e buscamos para os nossos filhos.

Leti já fazia terapia de integração sensorial. Há aproximadamente 6 meses. Fiquei muito seduzida com a proposta na época e resolvi investir, para ver no que dava.

Normalmente, quem faz esta modalidade de terapia é terapeuta ocupacional. No caso de Leti, foi uma fisio, acompanhada de uma fono. Saímos da fisio antiga, que nos acompanhava desde o sétimo mês de vida de Leti, e por quem tínhamos (e temos) um carinho enorme, e que foi responsável por grandes avanços motores da minha pequena, e fomos buscar o novo.

Foi um investimento alto! Não pelo valor em si, mas pela logística que tínhamos que fazer para tentar manter a continuidade da terapia. A terapia era numa cidade próxima (mas outra cidade). Íamos, inicialmente, às sextas à noite, fazíamos uma sessão, dormíamos num hotel,  fazíamos outra no sábado pela manhã e voltávamos logo depois.

Tinha, então, além do custo com as duas terapeutas, também o do combustível, do hotel, o desgaste na estrada toda semana e a perda das sextas feiras a dois, já que este era o único dia que tínhamos para sair à noite sem as crianças, porque temos babá em casa. Mas foi por uma boa causa.

Depois passamos a fazer duas sessões seguidas nas sextas pela manhã, o que eliminava o custo do hotel e o sacríficio das noites a dois. Mas, em compensação, sobrecarregava Leti, que acabava desgastada por ter que fazer a viagem de ida e volta no mesmo dia.

Mas neste segundo momento o trabalho acabou ficando descontinuado, porque ora uma das terapeutas não podia atender, ora a outra, ora nós tínhamos algum imprevisto. Fui ficando cismada com a situação.

Como já conhecia a referência de Aline Momo, e sabia do acesso fácil que ela teria com a atual TO de Leti, fui fazer uma avaliação, para saber o que ela achava do processamento sensorial da minha filha, e para tirar umas dúvidas, já que, até o momento em que tinha marcado a avaliação, não tinha tido um feedback do questionário que tinha preenchido quando do início do trabalho de integração, no ano passado.

A avaliação foi criteriosa e profissional. Merecia um post autônomo (até porque este já está está enorme). Mas serei sucinta para não fragmentar a matéria.

Primeiro, ela fez uma entrevista comigo. Depois pediu que eu preenchesse o mesmo questionário que havia preenchido aqui no ano passado. Tabulou o questionário e avaliou Leti. Ficou de mandar um relatório minucioso para mim dentro de 15 dias, e vai fazer a supervisão da TO, no que se relaciona à abordagem sensorial da minha filhota.

Depois de tudo isso, ela entendeu, em suma síntese:

1) Que Leti não tem nenhuma disfunção de processamento sensorial. Me explicou os testes que fez para chegar a tal conclusão. Disse que o que ela precisa é de mais tempo para acomodar as informações sensoriais que recebe, porque seu processamento é mais lento. Mas que o choro com a cessação do estímulo não significa desconforto, e sim necessidade do estímulo por um período maior.

2) Que o grau de maturidade social de Leti está bem próximo ao da sua idade (nem sei o que é isso, mas, pela simples literalidade da expressão, fiquei feliz com a conclusão);

3) Que o maior atraso que Leti tem é na parte motora. Disse que está seguindo as fase normais do processo de desenvolvimento, mas num ritmo muito mais lento, e que, ainda que não faça fisioterapia, vai adquirir marcha regular como todo mundo. Mas sugeriu a fisioterapia motora, tradicional, para acelerar o processo. Aconselhou a integração sensorial apenas como complemento, e não como terapia principal (ela chamou uma fisio para discutir o caso, que concordou com suas colocações).

4) Por fim, não foi uma conclusão dela, mas uma obesrvação que me deixou feliz e me fez refletir. Quando acabou, me disse: "- mãe, e sua filha sabe brincar, sim!" Porque na avaliação tinha dito que o que mais me preocupava era o pouco interesse de Leti pelo brincar. Ela me mostrou a capacidade de Leti de imitação, a noção de permanência de objeto, o interesse por regras etc, quando Leti, respectivamente, viu o cachorro de pelúcia e fez au au; quando procurou a bola que foi escondida em baixo de um pano; e quando apertou um brinquedinho de ação e reação, depois que a terapeuta mostrou como fazia, para ver o bichinho fazer um som. Ela estava super interessada em tudo! Na verdade, a minha preocupação era com as brincadeiras simbólicas (brincar de dar comidinha, de dar banho, de pôr a bonequinha para dormir), coisa que ela ainda faz muito mal. Mas, na minha ansiedade em fomentar o jogo simbólico, acabava não percebendo que brincava de outras coisas tão bem...

Para tudo tem seu tempo. Tenho que estimular o que ela precisa aprender, mas valorizar muito o que ela já sabe. Ficou a lição.

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O texto foi elaborado com apoio: do livro O processamento sensorial como ferramenta para educadores: facilitando o processo de aprendizagem, de Aline Momo e outras (disponível para compra aqui); e do módulo Integração sensorial e sua utilização com crianças com distúrbios de aprendizagem e neurológicos, de Lígia Maria de Godoy Carvalho.

3 comentários:

Ana Paula Pacheco disse...

Nossa, eu desconhecia! Ë o terapeuta ocupacional que avalia isto? Abraços!

Mariana - viciados em colo disse...

que coisa fantástica!
aprendi muito e fiquei feliz ao ver as conclusões.
beijoca

Hércules disse...

Não vejo a hora de rever esta pequena...
Fico realmente feliz em ver que todos estão evoluindo (e aqui coloco papai e mamãe, lógico), ter filhos e poder/saber acompanhá-los é uma arte!!!

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