sexta-feira, 9 de junho de 2017

Uma carta para Letícia

Filha linda!

Hoje eu quero falar para você. Não faço ideia de quando você vai conseguir decodificar esta mensagem, nem quando estará pronta para interpretar o seu conteúdo, mas, ainda assim, não quero perder a oportunidade de assumir, por escrito, o compromisso que fiz contigo no último domingo.
 
Quero, antes de tudo, te pedir desculpas.
 
Sim, eu percebi os sinais que você me mandou mas, mesmo assim, meu desejo de te ver brilhar era tão grande, que acabei me cegando para os seus reais desejos.
 
Sabe, com a proximidade do São João, com a recente melhora do seu quadro, e com os relatos da sua monitora de sala de aula, de que você ia bem nos ensaios da apresentação junina, eu revivi a imensa alegria de dois anos atrás, quando você, recém ingressa na nova escola, surpreendeu a todos na festinha de São João, e alimentei a esperança de reviver aquela experiência.

Mas nos 3 dias que antecederam a festa você, que ia tão bem, mudou um pouco. Estava visivelmente mais ansiosa, apertava as próprias bochechas, intensificou algumas estereotipias e, vez por outra, repetia, como uma mantra, a frase "São João não".
 
Confesso que cheguei a cogitar a possibilidade de mandar a apresentação às favas, mas você tinha ido tão bem no último ensaio que me fez querer apostar na sua capacidade de surpreender (e você nos surpreende tanto...), sem saber quanto isso custaria.
 
Mandei fazer um vestido lindo para você, entramos todos no clima e lá fomos nós para a escola, em pleno domingo, comemorar o São João.
 
Mas quando eu cheguei na escola, tive uma sensação estranha.
 
A escola estava linda, toda decorada, os funcionários ainda mais animados que o normal, as comidas típicas super apetitosas, o clima de São João em cada cantinho... Todo mundo que te via abria um sorriso tão verdadeiro e fazia um gracejo tão tocante...
 
Mas tive a sensação de que o som estava mais alto que o dia anterior, quando lá estava comemorando o São João do seu irmão caçula, que as pessoas faziam mais barulho ao conversar, que tinha gente demais num espaço de menos.
 
Na verdade, hoje percebo, tudo estava exatamente igual ao dia anterior, mas, naquele momento, eu senti o ambiente como, talvez, você o estivesse sentindo e isso fez meu coração se apertar até quase desaparecer.
 
Foi difícil te deixar com sua monitora na sala onde seus colegas estavam concentrados e me juntar aos pais para o momento tão esperado porque a minha vontade era ficar grudada em você.
 
Mas já tínhamos ido tão longe, por que não esperar mais um pouco?
 
E, como eu imaginava, a apresentação não foi semelhante a de dois anos atrás.
 
Ainda que a equipe da escola tivesse tido o cuidado de atribuir a você um papel que você conseguiria dar conta, todo o entorno, sem dúvida, te desestabilizou e impediu que você colocasse em prática tudo o que ensaiou. Até alguns artistas tremem ao subir ao palco...
 
Eu sei, minha pequena, tinha muita gente que você não conhece, muito barulho, muitos sentimentos misturados, muita expectativa.
 
Eu sentia o quanto estava difícil para você e, por isso, quis ficar perto de você entre uma apresentação e outra (eram duas curtinhas) para conversar com você, te acarinhar, tentar te tranquilizar.
 
Mas não foi suficiente!
 
Fico pensando o que você sentiu por mim naquele momento e confesso que me martiriza um pouco imaginar que você talvez estivesse me odiando por não tirar você daquela situação imediatamente! E você teria razão.
 
A Letícia de hoje não é a de dois anos atrás. Você está mais voluntariosa, mais decidida, menos flexível às coisas que não te agradam. E esta evolução é um espelho do seu desenvolvimento que tanto comemoramos.
 
Eu fico inflada de amor ao te ver bater na mesa, com uma cara séria, dizendo que não quer algo. E guardo a parcela de "mãe nutella" que toma conta de mim para lidar com a situação com a firmeza necessária que uma atitude desta maturidade pede, quando o momento não é de se negociar.
 
Mas eu me ceguei. Não ouvi os seus sinais. Não peguei você pelos braços e saí correndo dali. E, como, infelizmente, não tenho o super poder de fazer o tempo voltar para fazer algo diferente, resta-me pensar daqui para frente.
 
Por isso, ao sair da escola te pedi desculpas (e não sei se se lembrará disso quando puder ler este texto) e te prometi que aquela teria sido a última vez.
 
Você não precisará mais dançar quadrilha, nem fazer qualquer apresentação em público na escola se este não for o seu desejo. Você já precisa fazer tanta coisa que talvez preferisse não fazer que não seria justo te impor mais isso. E eu, como sua mãe, estarei firme e atenta para assegurar que terá este direito respeitado. É o mínimo que posso fazer.
 
O importante, tenho consciência, é o processo de criação com seus colegas e a equipe da sua escola, e disso você continuará participando, no seu tempo, do seu jeito e de acordo com a sua capacidade. Como sempre foi.
 
E quem sabe eu negocio com a escola para poder, sozinha, assistir ao ensaio final de uma próxima vez?
 
Seja como for, o objetivo deste post é pedir publicamente o seu perdão. E sei que já me perdoou, porque a serenidade do seu semblante ao ouvir o meu pedido de desculpas e o meu compromisso para o futuro, bem como o retorno ao seu estado de tranquilidade depois da nossa conversa deixaram isso suficientemente claro para mim.
 
Te prometo, minha pequena, de coração tranquilo e sem culpas - porque tenho consciência de ser humana e suscetível a erros - estar ainda mais atenta aos seus sinais, validar ainda mais as suas manifestações de vontade e buscar me melhorar a cada dia para poder te fazer feliz. Até o último dia da minha vida.
 
Te amo,
 
Sua mãe
 
 
 
 
 
 
 
 

3 comentários:

antonio carlos dos santos santos disse...

Declaracao de amor mais linda...Parabens Jana!!

Nah Oliveira disse...

Que lindo texto...❤

Ione Dantas disse...

Parabéns pelo lindo texto Janaina. Muito lindo e te admiro muito como mãe. Que Deus continue te abençoando.

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