sábado, 11 de agosto de 2012

O Pai dos Meus Filhos






Era uma vez um garotinho que, por desígnios de Deus, acabou perdendo o seu pai muito cedo. Para sua sorte, esse garoto teve um avô maravilhoso que, além de se esforçar para que nada faltasse em sua casa, guarneceu sua vida também de muito amor, cuidado e carinho. Talvez tenha sido com esse avô que esse garotinho, mesmo inconscientemente, tenha aprendido o que era ser pai...

Esse garoto cresceu e, apesar das dificuldades financeiras pelas quais sua família passou, conseguiu ingressar numa universidade privada, onde conheceu a pessoa que futuramente, se tornaria a mãe dos seus filhos.

Quando esse garoto, já bastante crescido, descobriu que seria pai pela primeira vez, sentiu um misto de medo e felicidade, já que, apesar da paternidade ser um projeto certo para a sua vida, estava programado para acontecer um pouco depois.

Mas o medo inicial foi se transformando em motivação. Motivação para crescer, para trabalhar mais, para estudar, para poder oferecer para aquele filho que estava por vir o melhor que ele pudesse ter.

Desde a descoberta da concepção, esse garoto mostrou que era dotado de um aguçado instinto paternal e, antes que qualquer exame de imagem mostrasse o sexo do seu bebê, ele já afirmava saber que seria pai de um menino, como efetivamente foi.

E quando aquele menininho nasceu, nasceu também o pai. Na mesma hora. E ele nem sabia... Estava na sala de parto, registrando tudo, se emocionando, achando que testemunhava apenas o nascimento do seu filho, e nem se deu conta de que um pai também nascia naquele momento. Mas a mãe percebeu! Percebeu na hora em que aquele garoto crescido, com um brilho diferente nos olhos, hesitou entre continuar acompanhando os procedimentos finais da cesárea junto à mãe, ou seguir o seu pequeno bebê em direção ao berçário. E ele optou, com o aval silencioso da mãe, por ir junto à cria...

Os dias que se seguiram mostraram em que tipo de pai aquele garotinho se transformaria. Pai que acorda de madrugada, que cuida, que não economiza nos mimos, que participa de tudo, que se preocupa, que interpreta (corretamente) o choro do filho... Pai que faz vontades, que dá presentes, que investe no futuro...

E enquanto esse pai foi pai de um único filho, ele canalizou todo o seu amor e todos os seus mimos para aquele pequeno ser que lhe fez experimentar o que parecia ser um milagre.

E, cada noite, antes de se deitar, ao olhar aquele pequeno no berço, já pensando na hora da madrugada em que se levantaria para colocá-lo para arrotar, coisa que fazia, religiosamente, todas as noites, mesmo tendo que acordar cedo para trabalhar, ele planejava o futuro, refazia projetos, e acabava por dormir ansioso, imaginando o dia em que estariam todos juntos, em casa, com a vida devidamente estruturada.

Dia que não tardou a chegar, recompensando-lhe todas as horas de estudo e dedicação, que foram furtadas do convívio com o pequeno, mas que lhe seriam devolvidas, ao longo da vida, com o mesmo amor e com uma maior probabilidade de lhe proporcionar aquilo necessário a sua formação, que precisasse ser pago com o dinheiro.

Esse pai ficou muito triste quando, prematuramente, e por duas vezes, o sonho de ser pai acabou sendo frustrado por razões que ele não conseguiu compreender.

Mas ficou extremamente feliz ao descobrir que, finalmente, seria pai pela segunda vez, e de uma menininha, como antes ele havia profetizado, e o que foi confirmado no dia do seu aniversário.

Novamente, na sala de parto, acompanhou a chegada de sua filha, com a mesma emoção da primeira vez, quando descobriu que o impossível havia acontecido: o imenso amor que sentía pelo seu primogênito (que parecia ser o que de maior havia no mundo), havia se dividido por dois naquele momento, e, para sua surpresa, cada um dos "dois amores" no qual havia se dividido parecia-lhe ainda maior que o anterior (que, antes, lhe soava como insuperável).

E ele, rapidamente, mostrou que também sabia ser pai de menina. E que tal experiência lhe causava uma sensação de plenitude que emanava de seus poros.

Ele voltou a acordar de madrugada, sempre com um sorriso nos lábios, aprendeu a trocar fraldas de menina, fez ouvido de mercador aos que lhe aconselhavam a não viciar sua princess em colo... Resgatou cantigas que haviam ficado guardadas em sua memória por alguns anos, enquanto seu primogênito crescia, e sempre sabia, no momento da dor, quando a hora era de automedicação, ou quando era necessário procurar um médico.

Esse pai ficou sem chão quando lhe falaram da possibilidade de sua princesa ser portadora de uma síndrome genética, que pudesse comprometer sua expectativa de vida. E chorou aliviada e compulsivamente quando tal suspeita foi descartada.

Ele demorou a acreditar que, apesar de sua pequena estar livre da tal síndrome, ela demandaria cuidados especiais que favorecessem o melhor processamento do seu desenvolvimento.

Ele sofreu, se questionou, duvidou, ele procurou respostas, buscou experts. Mas, no seu tempo, ele entendeu o que a vida lhe havia reservado. Entendeu que sua bebê linda era apenas diferente. E que continuava especial como todo filho deve ser. E fez uma opção. Uma opção pelo amor. E, numa cumplicidade estrita com a  mãe da sua prole, ele passou a exercer um papel mais ativo na estimulação da sua pequena e na busca da sua felicidade.

E quando a paixão por sua princesa passou a ser correspondida..., ele se derreteu! E passou a fazer, ainda mais, as suas vontades. A enchê-la de mimos e carinhos. A sucumbir, rapidamente, aos seus melosos pedidos. Começou a inventar histórias com seus personagens favoritos para fazê-la dormir e se tornou o companheiro preferido para estes momentos.

Ele se permitiu transformar-se numa pessoa melhor. E tem se superado nessa missão a cada dia.

Ele concordou com a mãe dos seus filhos de que havia chegado a hora de tentarem um terceiro filho, depois de muitas idas e vindas quanto a esta decisão. E comemorou ao descobrir que o filho que começavam a programar já tinha sido concebido e poderia chegar ao mundo no dia do seu aniversário (como, aliás, acabou acontecendo).

Como das outras vezes, esteve presente na sala de parto, e em todas as noites de internação no hospital. Apaixonou-se à primeira vista e protagonizou, junto com a mãe, os cuidados iniciais com seu bebê.

Ele se preocupou durante a gravidez. E durante os primeiros dias de vida do seu caçulinha. Buscou sinais que lhe mostrassem se o seu filho teria algum comprometimento no seu desenvolvimento, mesmo sabendo que isso não mudaria em nada o seu amor.

Ele confortou seu coração.

Na casa nova, com filho novo, ele fez de tudo para que pudessem, o mais rápido possível, encontrar instalações adequadas, depois do golpe de que foram vítimas. Ele dormia tarde, acordava cedo, e passava o dia inteiro resolvendo problemas enquanto pôde estar de férias e licença paternidade.

Ele concentrou os cuidados com sua pequena durante o puerpério, para tentar minimizar o ciúme que ela sentiria com a chegada do novo irmão. Dava banho, brincava, colocava para dormir, levava para escola, terapias, e até para shows e teatro foi sozinho com ela. Mudou-se para o quarto dela por muitos dias...

Ao mesmo tempo, não se descuidou da atenção com o primogênito, com quem costuma conversar sobre futebol e tantas outras afinidades que acabaram descobrindo.

E ainda arranjava tempo para lamber a (nova) cria: deliciava-se a cada nova descoberta, gabava-se da sua sociabilidade, enaltecia suas virtudes e, sempre que podia, estava, novamente, trabalhando para viciá-lo no colo (rs)...

No dia de voltar ao trabalho, e deixar mãe e filhos sós em casa, sua preocupação transparecia do seu rosto que não escondia os marejados. Era o início de uma nova etapa de vida!

Uma vida marcada pela opção de ter muitos filhos, como ele mesmo diz, brincando. O que faz com que projetos de realização pessoal sejam temporariamente adiados em benefício da família.

Hoje ele sabe que a viagem dos sonhos, a troca do carro e a decoração do apartamento novo terão que esperar um pouco mais. Mas isso não o incomoda. Porque a opção daquele garotinho que logo cedo ficou órfão é ser para os seus filhos o melhor pai que ele puder ser. (E tenho certeza de que ele sempre continuará sendo).



7 comentários:

Marina Queiroz disse...

Ah Jana, garganta embargada, nada para comentar! apenas dizer que o texto é lindo, e muito mais lindo por se tratar de uma história real!
Deus abençõe a família de vcs grandemente!

Ivana Luckesi disse...

você quer me matar do coração né amiga????? que história linda, quanta emoção!!!! tô sem palavras!!!

obrigada por compartilhar a história desse pai maravilhoso!

Anônimo disse...

Lindo texto,emocionante!!!!!

Pabiana Andrade disse...

Linda história!Conheço esse Pai e a Avó que o criou e sei o zelo e a estima deles.Parabéns pela bela família!

LEILA GUEVARA disse...

Oi, como vc escreve bem as emoções. Felicidades a sua família! Me emocionei muito com esse relato de um pai. Parabéns pela iniciativa.

Tudo de bom!

Leila Guevara

Erlane Paz disse...

chorando aqui. Também vivo essa agonoa em busca de um diagnóstico.

antonio carlos dos santos santos disse...

Parabens Jana, por mais essa perola, ja disse e repito: adoro ler seus escritos. Parabens pra voces pessoas lindas.

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